O parto da cadela
Img 1Chegou o momento! 2 meses de antecipação, cuidados redobrados e muito miminho. A sua cadela vai finalmente ser mamã.
Aprenda como é um parto normal, como os acontecimentos se vão desenrolar, e aprenda a reconhecer os sinais de que algum problema possa estar a ocorrer e de que é altura de ligar ao Médico Veterinário.
Meça a temperatura rectal da cadela gestante duas vezes ao dia. Quando a temperatura for inferior a 37,7°C, o parto ocorre geralmente 10 a 24 horas após a descida.

Etapa I
Inicia-se com o início das contracções uterinas e dilatação do colo do útero, e termina com a dilatação completa do colo do útero.
Img 2Essas contracções não são exteriormente visíveis, mas poderá notar que a sua cadela está inquieta e nervosa, sem vontade de comer, e inclusivamente vomitar. Dependendo da relação que tem com os donos e da sua reacção à dor, pode buscar a solidão ou, em pânico, a companhia dos donos, não querendo ser deixada sozinha a qualquer custo (normalmente este último comportamento é mais típico de cadelas pequenas e primíparas - mães pela primeira vez). Se já estiver ambientada ao local que preparou para ela parir (uma caixa grande e limpa é o ideal), é uma boa altura para a colocar lá, e manter-se junto dela ou afastado, conforme ela demonstrar querer estar só ou acompanhada. Nesta fase têm tendência para raspar o chão, na tentativa de formar ninho, por isso tenha antecipadamente o fundo da caixa aconchegado com toalhas bem lavadas ou papel limpo. A dilatação completa do colo do útero demora em média 6 a 12 horas, mas pode demorar 24 horas, sem que isso seja indício de problemas. No início é normal observar-se um corrimento vaginal semelhante a clara de ovo, mas que em qualquer altura da etapa I se pode tornar esverdeado/acastanhado (lóquios) com ou sem sangue. Isto significa que houve início de "desprendimento" das placentas, e que a etapa II, a expulsão activa do cachorro, está prestes a começar. Mantenha-se calmo. Está quase!

Etapa II
Desde a dilatação completa do colo do útero até à expulsão efectiva de um feto.
Nesta fase observam-se já contracções abdominais típicas, que acompanham cada contracção uterina. A cadela pode permanecer deitada de lado ou em posição agachada, efectuando esforços expulsivos activos, semelhantes aos de uma defecção difícil. Ao fim de alguns "empurrões", durante 10 a 30 minutos normalmente, nasce um cachorrinho. Nesta altura a cadela precisa de um ambiente o mais tranquilo possível. Deixe as fotos e as filmagens de lado, ou se as realizar faço-o o mais longe possível da cadela e serenamente. Sobretudo, não entre em pânico. O seu stress facilmente se transmite à parturiente, e uma parturiente nervosa e atemorizada pode interromper um trabalho de parto que até então se estava a desenrolar bem. A cadela deve lamber vigorosamente cada cachorrinho acabado de nascer, rompendo as membranas que o envolvem e cortando o cordão umbilical com os dentes. Se vir que a mãe descura o filhote por completo durante uns bons 2 minutos, e que não o lambe, tem que intervir prontamente. Pegue-o com uma toalha limpa e seca (senão escorregará) e esfregue-o vigorosamente com a parte livre da toalha, para estimular a respiração e romper as membranas. Faça-lhe movimentos com as patinhas da frente para cima e para baixo. Se a cadela não romper o cordão umbilical, o que mais uma vez é muito raro acontecer, ate-o num nó apertado com fio dental a uma distância de 3 cm da barriga do cachorrinho, e dê outro nó 1/2 cm mais adiante. Dê um corte com uma tesoura limpa e desinfectada entre os nós e coloque Bétadine na extremidade que fica pendente da barriguita.

Etapa III
Desde a expulsão do feto à expulsão da placenta.
Costuma acontecer entre 5 a 15 minutos depois da expulsão do cachorro. Não se assuste com a sua aparência, parecem porções elípticas de consistência e cor semelhante a fígado, e são sanguinolentas. é costume a cadela comer as placentas, não se assuste se ela o fizer, ou mesmo se as vomitar em seguida. Não se preocupe também se ela não o fizer. O importante é observar o número de placentas e verificar se coincidem com o número de cachorros nascidos. Isto por vezes é complicado de fazer, porque (1) há cachorros que nascem supostamente "sem placenta" - fica retida e será expulsa no nascimento do próximo cachorro, ou mais frequentemente no nascimento do outro que lhe seguir; (2) a cadela pode comer a placenta tão rapidamente que o dono não se dá conta; (3) o dono não assiste ao parto. Se a cadela estiver bem, não há motivo de preocupação. Se se mostrar prostrada, o melhor será levá-la ao Médico Veterinário, que pesquisará suposta Retenção Placentária e efectuará o tratamento adequado.
A mamã cadela alternará constantemente entre as etapas II e III, enquanto durar o parto. Por vezes ente o nascimento de 2 cachorros há uma pausa maior, antes de retornar à expulsão activa do seguinte. Isto não é preocupante se não ultrapassar as 6 horas de duração, senão chame o Médico Veterinário. Poder-se-á dar o caso de o parto já ter terminado.
Quando contactar o médico veterinário:

O Pós-Parto
Dê à parturiente uma refeição leve, preferencialmente um preparado caseiro tipo "canja", para hidratar e repor os sais minerais e a energia perdidos. Deixe-lhe sempre água à disposição para estimular a produção de leite. Passe depois à ração puppy adequada ao tamanho da sua cadela e aconselhada pelo veterinário, Img 3e deixe-a comer sem restrições. Vai precisar de muita energia para o período de amamentação. Suplementos vitamínicos só com o aval do médico veterinário assistente. O local onde ficará a mamã e a ninhada (deixe-os permanecer na caixa onde ocorrer o parto) terá que estar a uma temperatura amena (aproximadamente 24°C), principalmente na 1ª semana, altura em que os cachorros são muito sensíveis ao frio, e deve vigiar constantemente, para que não ocorram mortes de cachorrinhos por esmagamento e para detectar atempadamente eventual negligência materna. Não se esqueça de desparasitar mães e filhos aos 15 dias com um produto aconselhado pelo médico veterinário.
A involução do útero. Durante o período em que o útero retorna às suas dimensões normais poder-se-á observar um corrimento vaginal esverdeado, acastanhado ou sanguinolento. Se não tiver mau odor e se a sua cadela parecer saudável e activa, é perfeitamente normal, mesmo que dure 12 semanas. O mais habitual, contudo, é que permaneça 4 a 6 semanas e que vá diminuindo gradualmente. Se lhe parecer que essa descarga é demasiado copiosa, que tem um odor desagradável ou que a sua cadela não se encontra bem, recorra ao Médico Veterinário.
Os primeiros 7 dias pós parto são os mais delicados, pois é quando ocorrem com mais frequência complicações relacionadas com esta fase. Observe a recém-mamã de perto. Procure os sinais já citados, veja se ela cuida bem dos filhotes, vigie a sua produção de leite, observe se come bem e se tem energia.
A amamentação. Normalmente os cachorrinhos começam a mamar mal nascem, depois de todo o trabalho de "limpeza" efectuado pela mãe. Algumas cadelas amamentam os cachorrinhos já paridos entre prossegue o parto dos restantes, outras fazem-no só no final. Se houver algum cachorrinho mais desorientado, que não encontre uma teta, ajude-o (não se esqueça que nascem de olhos fechados). A ingestão do primeiro leite (o colostro) é essencial nas primeiras 24 horas, por isso insista, se vir que algum cachorrinho fica “para trás” na corrida pela sobrevivência. Não se preocupe com a quantidade de leite nos primeiros 2 dias. Proporcione uma boa alimentação à mamã e repouso. Se os filhotes ou a mãe se mostrarem insatisfeitos e resmungões, leve ambos ao veterinário, que poderá diagnosticar algum problema específico (ex. mastite: inflamação da glândula mamária) e aconselhar tratamento, bem como indicar um suplemento de leite específico.
O perigo da Hipocalcémia. Se a mamã se mostrar nervosa, inquieta, se coxear ou começar a mostrar andamentos estranhos e rígidos, se salivar, ou se tiver convulsões, leve-a imediatamente ao Veterinário. Estará provavelmente com falta de cálcio no sangue, devido às exigências da amamentação e/ou ao desgaste físico provocado pelo trabalho de parto. Este problema pode ocorrer inclusivamente até aos 45 dias pós-parto, pelo que observe regularmente o comportamento da cadela e da ninhada.

Img 4A natureza encarrega-se de dotar a sua cadela dos instintos básicos para se "desenvencilhar" sozinha, e normalmente quanto menos interferimos, mais natural e calmo é o parto e o pós-parto. Existem obviamente algumas complicações que podem surgir, e já ficou, esperemos, elucidado acerca delas. Consulte contudo o seu médico veterinário caso lhe surja qualquer dúvida ou se lhe parecer que algo não está bem. Os donos conhecem melhor que ninguém os seus animais, e, mesmo havendo o perigo de entrar em alarmismos desnecessários, mais vale preocupar-se saudavelmente do que negligenciar situações potencialmente fatais.
Lembre-se no entanto: o mais habitual é um final feliz, sem percalços pelo meio. Parabéns por ter "apadrinhado" o milagre da vida!
Rita Baptista
(Médica Veterinária)